Por que a interface entre alvenaria, cinta e estrutura metálica precisa evoluir
Nos últimos anos, eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da realidade brasileira. Ventos mais intensos, chuvas concentradas, granizo e tempestades severas têm colocado à prova soluções construtivas que, por décadas, funcionaram sem grandes questionamentos.
Nesse cenário, o telhado deixou de ser apenas um elemento de proteção e passou a ser um dos pontos mais críticos da segurança e da durabilidade das edificações.
Este artigo nasce justamente dessa necessidade: repensar a forma como projetamos e ancoramos telhados, especialmente aqueles executados com estruturas leves.
1. O problema não é a telha é o sistema
Quando falamos em falhas de cobertura durante tempestades, é comum culpar diretamente o tipo de telha. No entanto, a realidade é mais complexa.
- Telhas cerâmicas
Trabalham essencialmente por peso. Sob ventos fortes, podem se deslocar, abrindo caminhos para a entrada de água e causando infiltrações severas, mesmo sem o colapso total do telhado. - Telhas metálicas, shingle, fibrocimento, sanduíche
São telhas fixadas mecanicamente à estrutura. Resistem melhor ao deslocamento pontual, mas transferem esforços significativos para as terças, tesouras e, principalmente, para as ancoragens.
Ou seja:
o desempenho do telhado depende do conjunto telha + estrutura + ancoragem, e não apenas do material de cobertura.
2. Telhados leves não “pesam” eles são sugados
Um erro conceitual ainda muito comum é tratar o telhado como uma carga permanente que “aperta” a estrutura contra as paredes.
Na prática, em eventos extremos, ocorre exatamente o contrário.
Sob a ação do vento:
- formam-se zonas de sucção na cobertura,
- o telhado passa a trabalhar predominantemente à tração (uplift),
- a estrutura tenta literalmente se desprender da edificação.
Se o caminho de cargas não estiver bem definido, o ponto fraco não será a telha, será a interface entre a estrutura do telhado e o restante do edifício.
3. A interface crítica: alvenaria ↔ cinta ↔ estrutura metálica ↔ telhado
Em sistemas bastante comuns no Brasil, alvenaria estrutural com telhado em Light Steel Frame, essa interface costuma ser resolvida de forma simplificada na obra, muitas vezes sem detalhamento específico em projeto.
O correto é que exista um caminho contínuo de esforços:
Telha → Terça → Tesoura → Ancoragem → Cinta de amarração → Paredes → Fundação
Quando essa sequência é interrompida ou mal resolvida, surgem os problemas:
- deslocamento de telhas,
- arrancamento de tesouras,
- fissuração no topo das paredes,
- infiltrações recorrentes,
- colapsos parciais em eventos de vento extremo.
4. O que a prática internacional nos ensina
Nos Estados Unidos, onde o impacto de furacões e tempestades severas é historicamente considerado em projeto, a abordagem é clara:
- a ancoragem do telhado é prevista antes da concretagem da cinta;
- os conectores trabalham explicitamente à tração;
- o sistema é pensado para resistir à sucção do vento, não apenas ao peso próprio.

Detalhes como os Embedded Truss Anchors (META, HETA, HHETA), amplamente divulgados por fabricantes como a Simpson Strong-Tie, deixam isso evidente:
- ancoragem embutida no concreto,
- caminho de cargas contínuo,
- menor dependência de “ajustes de obra”.
Mais do que o conector específico, o que se destaca é a lógica de projeto.
5. O risco da ancoragem improvisada
No Brasil, ainda é frequente a solução:
- cantoneira metálica,
- chumbador químico pós-instalado,
- decisão tomada já com a obra em andamento.
Essa solução não é proibida, mas traz riscos claros quando usada indiscriminadamente:
- depende fortemente da execução correta,
- costuma ser pouco redundante,
- raramente é dimensionada considerando sucção do vento,
- não foi pensada como parte integrante do sistema estrutural.
Em um contexto de eventos climáticos mais severos, esse tipo de abordagem se mostra cada vez menos adequada.
6. Telhados resilientes exigem mudança de mentalidade
Falar em resiliência não significa apenas escolher uma telha “mais forte”.
Significa:
- projetar o telhado como elemento estrutural ativo;
- prever ancoragens desde o projeto;
- detalhar claramente a interface entre sistemas;
- reduzir improvisos e decisões de última hora na obra.
Telhados mais resilientes começam no papel.
7. Conclusão
As mudanças climáticas estão forçando o setor da construção a evoluir. Ventos mais intensos, chuvas concentradas e granizo não são mais eventos raros, são dados de projeto.
Nesse cenário, a pergunta deixa de ser:
“Essa solução sempre funcionou?”
E passa a ser:
“Ela está preparada para o próximo evento extremo?”
Projetar telhados leves exige entender que:
- o vento puxa,
- a ancoragem segura,
- e o detalhe construtivo faz toda a diferença.